Cineclube Banco do Brasil




Entre os anos 80 e 90, a Rede Bandeirantes de Televisão, tinha em sua grade de programação, uma sessão voltada para a exibição de filmes de altíssima qualidade, chamada de "Cineclube Banco do Brasil".
Foi atráves desta sessão semanal que comecei a conhecer filmes mais adultos, com temáticas diferentes da comédias românticas que eu costumava ver. Geralmente, eram apresentados filmes europeus ou de diretores conhecidos do grande público ou novatos que destacavam-se nesse meio. Com certeza, todos os filmes apresentados foram grandes sucessos de crítica. De público nem sempre.
Um dos primeiros que vi foi: "O nome da rosa". Engraçado como nossa mente lembra de detalhes. Ele passou no dia da primeira comunhão de meu sobrinho mais velho e aqui em casa teve um churrasco para comemorar a data. Vi em uma antiga TV preto e branco, no quarto de meus pais. Enquanto eles ficavam na sala vendo Silvio Santos, eu ficava lá vendo meus adorados filmes.
Depois deste, foram vários títulos. A partir daí me tornei uma pequena conhecedora de cineastas famosos, como Jean Jacques Annaud, Milos Forman, Ingmar Bergman, Krzysztof Kieslowski, Davdi Linch, Steven Soderbergh, Alain Resnais, Philip Kaufman, dentre outros. Comecei a ler sobre estes e outros diretores e sobre seus filmes. Passei a ver o cinema por outra perspectiva, que não se limitavam so aos filmes hollywodianos. Conheci o cinema europeu aqui e aprendi a gostar dele. Um gosto que permanece até hoje.
Algumas películas que assisti:
1) "Não amarás", "A igualdade é branca", "A fraternidade é vermelha", "A liberdade é azul", "A dupla vida de Veronique" = todos estes do diretor polonês Krsysztof Kieslowski. Um mero desconhecido que ficou famoso, após seu filme "Não amaras" se tornar um sucesso de crítica e público. A história fala de um adolescente que se apaixona por sua vizinha do prédio em frente e mediante seu amor, passa a vigiá-la atráves de uma luneta todas as noites. É tão triste, que ao terminar o filme, fiquei decepcionada com o final. Alguns anos depois já adulta peguei para ver novamente e entendi tudo o que o diretor quis nos dizer atráves dos dois personagens. Os 3 seguintes fazem parte de uma trilogia que homenageou a França, baseadando-se no lema da Revolução francesa (Liberdade, igualdade e fraternidade) e nas cores de sua bandeira.
2) "Camile Claudel" e "Danton, o processo da revolução" = ambos são filmes franceses e contam com a participação do ator Gerard Depardieu. O primeiro conta a história da escultura título do filme. Narra sua trajetoria, seu romance com o famoso Auguste Rodin, o fim desse relacionamento que a leva a loucura e seu fim em um asilo. Belo filme, ganhou diversos prêmios, dentre eles o urso de prata de melhor atriz para Isabelle Adjani, que está fabulosa, numa atuação perfeita. O segundo fala da revolução francesa. É um filme bom, porém um pouco cansativo, devido a quantidade de informações e detalhes.
3) "Veludo azul" = dirigido pelo estranho David Linch, que ficou conhecidíssimo por dirigir a série Twin Peaks que marcou minha geração. Fez um estrondoso sucesso aqui e la fora. Um suspense que prende a atenção do espectador do início ao fim. O filme é bom, porém, meio complexo. Álias, os filmes dirigidos por este diretor tem temáticas bem além de nossa mente. É necessário prestarmos muita atenção e viajarmos em suas idéias, vide seus filmes "Coração Selvagem" , "Cidade dos sonhos" e "Império dos sonhos".
4) "A insustentável leveza do ser" = baseado no livro de mesmo título do autor Milan Kundera. A história se passa nos anos 60 na antiga Tchecoslováquia, no período da chamada "Primavera de Praga" e fala das aventuras sexuais de um médico, interpretado pelo Daniel Day Lewis. Há um triângulo amoroso entre o personagem do médico e o das atrizes Juliete Binoche e Lena Olin. Bom filme.
5) "Hiroshima, meu amor" = é francês também, dirigido pelo talentoso Alain Resnais ("Meu tio na America e Medos privados em lugares públicos"). Fala sobre o amor, a vida, a dor e um dos maiores desastres que ja aconteceu no Japão. A história é bela e cativante. Um ritmo lento e suave para falar de duas pessoas que se conhecem por acaso e aproveitam a oportunidade para viverem em 24 horas momentos únicos de amor, sentimento verdadeiro e puro, sem medos e cobranças. Um se mostra ao outro da forma como é. Lindo! So vendo para entender.
6) "Delicatessen" = confesso que este aqui eu detestei. Achei a história tão tola. Não consegui gostar. E olha que depois de alguns anos eu peguei para ver novamente, mas, não deu. O diretor do filme é o mesmo de "O fabuloso destino de Amelie Polan". Já este aqui eu gostei.
7) "Fanny e Alexander" = este uma co-produção alemã, sueca e francesa. Foi dirigido pelo famosissímo Ingmar Bergman e ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro e o globo de ouro de melhor filme. O filme conta a história de dois irmãos Fanny e Alexander que após o casamento de sua mãe, vão viver em outra casa, junto com seu padastro. A partir daí, eles passam a ser maltratados, sofrendo inclusive torturas físicas. Lembro que Alexander, por ser o mais velho e bater de frente com ele, apanhou e sofreu muito. O filme trata também de questões religiosas. A fotografia é linda. Uma pérola desse fabuloso diretor.
8) "O sol por testemunha" = este aqui com o belo Alain Delon. Uma coisa que sempre me chamou a atenção neste filme é a beleza de AD, de fato, lindíssimo. Na história seu personagem é um homem frio e calculista que se aproveita de uma situação para dar um golpe de mestre. Em 1999 ganhou uma nova versão, chamada "O talentoso Ripley", protagonizado por Matt Damon. Eu adorei e recomendo a todos. Dos dois a primeira versão é a melhor.
9) "Minha vida de cachorro" = filme sueco que me marcou muito. Narra a história do pequeno Ingemar, que após a doença de sua mãe vai morar com seus parentes. La ele vivencia cada situação e aprende muitas lições. É cativante a forma como tão novo o menino é obrigado a entender e compreender a vida. O menino que faz o papel principal da um show. Um talento e tanto, que não sei se seguiu em frente. Enfim, emociona muito. História simples, mas de uma beleza fantástica.
10) "Bagda Café" = grande sucesso de crítica e de público quando foi lançado aqui no Brasil. Narra a aventura de uma turista alemã, que após abandonar seu marido e caminhar pelo deserto do Arizona, chega a um motel, chamado "Bagda Café", localizado numa pequena cidade dos EUA. La ela modifica a vida daquelas pessoas e principalmente a sua. Belíssimo. Super cultuado. Filmaço que vale a pena todos assistirem.
11) "Paris, Texas" = dirigido pelo Wim Wenders, o mesmo de "Asas do desejo" (para mim um dos melhores filmes que ja vi). Conta a história de um homem que perde a memória e é encontrado em um deserto nos EUA. Aos poucos ele vai relembrar sua vida. Um pouco longo e cansativo, porém, uma história excelente de um homem em busca de si mesmo. No elenco a bela Nastassia Kinski, qua anda sumida. Gosto desta atriz.
12) "Sexo, mentiras e videotape" = no dia em que vi este filme, levei um baita esporro da minha irmã. Neste dia eu e minha irmã fomos almoçar na casa da comadre de minha mãe. Passamos o dia inteiro lá. Na varanda tinha uma televisão velha, preto e branco. Quando deu o horário da sessão, pedi a minha tia para ligar a tv. Ela permitiu. Então, liguei e sentei com toda calma para ver meu filme. Porém, ele tem algumas cenas mais pesadinhas (para mim nada demais). Nossa!!! Isso desencadeou uma confusão. Minha tia viu e foi chamar minha irmã. Na hora que ela chegou tava passando uma cena imprópria (tinham crianças e adolescentes no local), ai me dei mal, ela brigou comigo e desligou a tv na minha cara. Comecei a reclamar, mas, não adiantou. Fiquei sem filme e com a cara no chão, morrendo de vergonha. Enfim, toda vez que escuto falar nele, lembro desta história, que me marcou. Alguns anos depois, com o advento do vídeo cassete vi o filme e adorei. Excelente o tema, a direção e o conjunto de atores.
Ufa!!! Vou parando por aqui. Estes são os principais, dos quais me recordo. Vi outros, mas, não consigo lembrar.
Quem lembrar de algum que eu não tenha citado, por favor, me fale, tá.

9 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Oi, Cintia!

Eu conheci O Nome da Rosa no colégio, através de um professor de história, em sua aula, no ginásio. Nunca esqueci e depois acabei revendo, por volta de 2002.

A trilogia das cores é mesmo um marco, mas confesso gostar mais do A Liberdade é azul, é o que mais revejo, por assim dizer. Binoche linda!

Fanny e Alexander e A Insustentável Leveza do Ser eu vi, ainda criança, mas não me recordo - preciso rever, fato.

Beijão e ótimo post!

Reinaldo Glioche disse...

Oi Cintia, tudo bem?
Adorei a forma que você elaborou seu artigo. Relacionar a memória afetiva e pessoal ao efeito que os filmes causam é muito interessante...
Além da seleção de filmes apresentada por vc aqui ser espetacular, além de essencial para qualquer cinéfilo.

Os citados por vc que eu mais gosto são:

A insustentável leveza do ser

Sexo, mentira e videotape ( e a sua memória do filme é um deleite)

Minha vida de cachorro

O sol por testemunha

e Fanny e Alexander.

Mas todos são maravilhosos.

Ademais, concordo com o Cristiano aqui em cima. Juliete Binoche é dona de uma beleza hipnótica que em muito ajuda seus filmes.

Beijos

bones disse...

Vc acertou, eu gostei, na verdade vc citou parte da minha coleção de dvds,hehe, desses eu ainda não vi a trilogia das cores por falta de tempo, ganhei a coleção faz tempo.....
De memória eu diria que dessa época eu gostei do filme "O tambor" , nunca mais vi na TV.
Gostava dos filmes de Kurosawa nas sessões da meia noite, de Pasolini ( as noites de decamerão foi um escandalo para mim na época), a doce vida de Fellini, o sétino selo de bergman (este foi copiado até por desenho animado - já viu as aventuras de Billy e Mandy?) e pra sempre me lembrarei do anjo exterminador de buñuel (aff, sonhei com ovelhas por meses)
Nem todos eu vi na TV, teve uma época em que eu ia muito a retrospectivas em cineclubes, sabe antes do VHS virar moda..... puxa me sinto uma anciã. O bom é que hoje é so entrar numa locadora e encontrar tudo isso nas prateleiras.
Adoro viver no século XXI.
vc viu Cidade dos Sonhos de David Lynch? não é velho na verdade até bem recente, estou curiosa em saber sua opinião sobre este filme.
as pessoas dão opiniões muito diferentes ou simplesmente não entendem o enredo, vc tem bagagem cultural para opinar, bom ,fica a dica se vc ainda não viu.
Abração Cintia.

Rafa Amaral disse...

Tirando o Camile Claudel, vi todos os filmes que vc citou. Na maioria, ótimos e essas sessões nostalgia fazem falta, ainda em épocas em que a programação da TV está cada vez pior!!! Veludo Azul, A Trilogia das Cores e outros citados são filmes que me marcaram. Kieslowski foi um dos últimos grandes cineastas, à altura de um Bergman e Tarkovski.Você citou também o Hiroshima, Meu Amor, um dos filmes que, ao falar do amor entre pessoas de etnias diferentes, falou sobre a importância da paz e como a guerra mudou o curso da história até mesmo quando se trata de pequenos e relacionamentos casuais. Um abraço e volto sempre!

Marcelo A. disse...

Saudades dessa época boa, em que tínhamos opção de bons filmes na TV aberta. Sua lista está fabulosa! E me fez lembrar de uma história delicidosa. Lembra que Carolina assistiu Delicatessen numa fita VHS e nos indicou, entusiasmada? Quando a Band anunciou, vibramos. No dia seguinte, na escola, baita decepção. Odiamos o filme. Não consegui sequer ver a metade...

Minha Vida de Cachorro?! Putz, tinha esse gravado aqui, de uma dessas exibições! Saudade boa...

Isso aí, comadre... Desenterra mais pérolas! A gente agradece...

Beijão!

Paulo disse...

Menina, que maravilha!!!
Que blog gostoso. Eu ficava ansioso para que chegasse domingo, para que eu pudesse degustar e gravar em VHS estas pérolas. Cito outros: "Adeus, minha concubina", "Sorgo Vermelho", "Virgínia" [filme maravilhoso em que uma menina tem que se passar por homem para manter a tradição na família e perante a sociedade], "Pepi, Luci, Bom e otras chicas de montón", "Um dia, um gato" [filme tcheco que mostra os moradores de uma cidade interiorana que suas idiossincracias são representadas por cores na visão de um gato: ira , cor roxa; luxúria, vermelho; medo, amarelo, etc., MARAVILHOSO], etc., etc. Menina, vou me ater aqui a lista é imensa... Seu blog é uma delícia, bjões PC BARDO-VATE

MARCIO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MARCIO disse...

Bem Lembrado !
Eu também amava essa sessâo !Gostei muito da Viagem do Capitão Tornado de Ettore SCOLA ,De Salto Alto de PEDRO ALMODOVAR,Napoleon de Abel GANCE ,Afogando em Números de Peter Greenaway,Kaos de Paolo e Vitorio Taviani ,O Fantasma da liberdade ,Esse obscuro objeto do prazer,O dicreto charme da burguesia ,A Bela da tarde ,Viridiana esses de Luis Buñuel,Matador,kIKA de Pedro Almodovar,Bom dia Babilonia e A noite de SÃO LOURENÇO dos Taviani e muitos outros filmes maravilhosos ...

Hilde disse...

Se não me falha a memória, a sessão "Cineclube Banco do Brasil" só durou um ano, com a apresentação de Fernanda Torres.

Acho que foi em 1992.

No ano seguinte o Banco do Brasil parou de patrocinar, e a sessão virou apenas "Cineclube".


Não lembro da trilogia das cores na sessão.

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